26
mar
2018

Manifesto do 1º Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE

As mulheres lutaram ao longo da história e continuam lutando, tendo a resistência como característica que também está presente entre as mulheres que construíram e constroem o SINASEFE, seja nacionalmente ou em suas Seções Sindicais, como direção ou base. A partir desta convicção, nós, mulheres sindicalizadas do SINASEFE, reunidas no 1º Encontro Nacional de Mulheres, apresentamos esse manifesto e as proposições que o seguem.

Inúmeras vezes, a participação das mulheres foi invisibilizada. Na prática, o Sindicato foi e ainda é para muitas de nós, um espaço hostil, pouco ou nada acolhedor. É um espaço onde lamentavelmente também vivenciamos situações de assédio moral e sexual; onde algumas vezes, somos usadas para cumprir cotas, mas sem a efetiva garantia da participação das mulheres nos espaços de poder. Foram muitos os relatos (desde assédios até a instrumentalização da causa) realizados tanto pelas fundadoras quanto pelas mais jovens sindicalizadas. Muitas foram as dificuldades que enfrentamos pra chegar até aqui, mas pela superação dessas mesmas dificuldades é que convocamos as companheiras e companheiros a somar esforços na nossa luta.

Vivemos em tempos sombrios, temerosos, diferentes mulheres são violentadas das mais distintas e perversas formas, onde as garantias mínimas de proteção social conquistadas com muitas lutas nos foram arrancadas de um só golpe impetrado por uma elite machista, branca, homofóbica, racista, intolerante e violenta. Os tempos são difíceis, mas nós resistimos!

O quadro que se delineia para a classe trabalhadora, e em especial para as mulheres, é desolador: aos menores salários, as múltiplas jornadas, ao maior índice de trabalho precarizado, ao assedio moral e sexual, ao feminicídio, a lesbo/transfobia soma-se o congelamento dos investimentos públicos por 20 anos, a retirada de direitos e proteção ao trabalho, na inexistência de políticas sociais para a descriminalização das drogas, cada vez mais tratado como caso de polícia, matando principalmente os/as filhos/as das mães pretas; recuos também em relação à previdência, com uma reforma que ameaça principalmente as mulheres e, entre essas ainda mais as trabalhadoras rurais, cujo aumento do tempo de contribuição constitui aumento da exploração da força de trabalho e acúmulo de tarefas domésticas no decorrer da vida.

Faz-se necessário ainda nos organizarmos em contraposição às investidas de criminalização das poucas formas legalizadas do direito ao aborto e a todas as medidas que avançam contra nós no Congresso Nacional, como os estatutos da família e do nascituro, os recuos na garantia de direitos como a liberdade de expressão que afeta diretamente a prática educativa, a exemplo do execrável projeto da mordaça nas escolas, denominado Escola Sem Partido.

Queremos lembrar que no mundo inteiro assistimos um espectro de retrocessos, retirada de direitos e ascensão da ideologia fascista, mas as mulheres não se rendem, o movimento feminista ascende através de articulações vitoriosas como a Greve Internacional das Mulheres. As mulheres não se curvam, senão com a morte e mesmo diante do assassinato de companheiras de luta, não se assustam nem esmorecem, ao contrário, seguram a dor e vão pra luta.

Por tudo isso uma práxis sindical machista, dentro de um sindicato classista, torna-se ainda mais intolerável, visto que enfraquece a luta da classe trabalhadora, pois se a luta contra o patriarcado e o racismo for descolada da luta anticapitalista, as batalhas centrais se dariam muito mais no campo das relações de gênero e das relações raciais, que entre a burguesia e a classe trabalhadora. Dito isso, compreendemos que a luta feminista é parte do terreno da luta de classes. Tratar de transformação social sem a nossa participação ativa significa abafar a voz de uma multidão. É fundamental que façamos uma reflexão coletiva acerca da necessidade de não reproduzir os valores e práticas sindicais excludentes e que utilizemos de recursos diversos para fortalecer a nossa organização, compartilhar experiências e saberes e estimular a solidariedade entre as mulheres trabalhadoras, não apenas as mulheres da nossa categoria, mas, sobretudo aquelas que se encontram em maior vulnerabilidade que nós, as que se encontram em trabalhos ‘hiperprecarizados’, dentre elas as mais próximas de nós chamadas genericamente terceirizadas. Olhemos pra estas com toda solidariedade, assim como para as estudantes.

Nesse sentido, entendemos que o nosso feminismo deve considerar os marcadores sociais de classe, raça, gênero, geração, sexualidade, origem; especificidades que não significam divisão dentro da classe trabalhadora, mas fortalecimento a partir do respeito a todas essas diversidades.

Por fim, acreditamos que este foi o primeiro de muitos encontros que virão, representando um marco para um sindicalismo que seja articulado com a efetiva participação das mulheres e que os companheiros percebam que ao fortalecer a participação das mulheres, estão fortalecendo a luta da classe trabalhadora. Somos mulheres, muitas, diversas! Somos mulheres brancas, negras, quilombolas, indígenas, heterossexuais, lésbicas, bissexuais, trans, idosas, jovens, aposentadas, ativas, com deficiência ou não, da capital e do interior, dos centros e periferias das cidades, do campo, de todas as cinco regiões do Brasil, somos professoras e Técnicas Administrativas em Educação, mulheres trabalhadoras da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica em luta!

Brasília, 25 de março de 2018.