Sindicato Nacional dos Servidores Federais
da Educação Básica, Profissional e Tecnológica


Representante dos docentes e técnico-administrativos da Rede Federal de
Educação Profissional, Científica e Tecnológica
Filiação:



Você está aqui: Início Notícias
Manifestações contra o G20 contam com participação do SINASEFE
Publicado por Mário Júnior - Seg, 03 dez. 2018 16:44
Nos dias 30/11 e 01/12, em Buenos Aires, capital da Argentina, foi realizada a 13ª Cúpula do Grupo das 20 Maiores Economias do Planeta (G20). Esta foi a primeira Cúpula do G20 realizada na América do Sul, sendo marcada por fortes protestos dos trabalhadores argentinos e com o apoio de diversas delegações estrangeiras que se fizeram presentes.
O SINASEFE NACIONAL e a CSP-Conlutas (Central Sindical e Popular à qual somos filiados) estiveram representados nestes atos. Confira abaixo o relatório produzido pela coordenadora geral do SINASEFE Camila Marques, que esteve presente nos protestos contra o G20.

Relatório de viagem: ato contra o G20 em Buenos Aires
A reunião do G20 é um evento mundial de suma importância, reúne os presidentes e alto escalão de 19 países e mais a União Europeia no que parece ser um Oscar da política, mas que na verdade representa o encontro de grandes países capitalistas para realizar acordos, articulações políticas e financeiras e com isso tentar determinar o nosso destino.
A palavra é mesmo tentar, pois mesmo com toda força que contam as representações políticas e o seu arsenal bélico descomunal para a história do mundo, a classe dominante não é a única a atuar, e não faz tudo como quer e ao seu bel prazer: eles dependem da classe trabalhadora, que se organiza, luta, resiste e tem uma perspectiva outra de sociedade.
O governo Macri estava anunciando há semanas que não haveria manifestação contrária ao G20 e criou um super aparato militar. Fechou todo o centro de Buenos Aires, fez um cerco de batalhões policiais em todas as esquinas, fechou comércios etc. Mas sim, teve marcha! Uma linda e forte marcha de manifestantes! Vamos à ela…

Manifestações com outro formato: reflexões para a nossa luta
Uma das coisas que chama atenção ao chegar em Buenos Aires é a diferença do terreno da luta. A capital da Argentina não guarda semelhanças com a capital do Brasil.
O centro político está também em um centro comercial. Ao lado do Congresso estão largas avenidas que são normalmente movimentadas. É como pensar em uma manifestação no centro do Rio de Janeiro-RJ, de Sao Paulo-SP… nada a ver com Brasília-DF e a Esplanada dos Ministérios.
Brasília-DF é uma cidade planejada, entre outras coisas, para "receber" as manifestações, por isso carinhosamente chamamos o centro do poder político do país de "protestódromo". Justamente pelas diferenças cabe um paralelo: na verdade, a polícia e o governo argentinos tiveram um esforço de semanas para fazer com que sua capital se "abrasiliasse" um pouco, mas não foi possível fazer isso por completo.
Os dias de reunião do G20 foram decretados feriado. O comércio foi quase todo fechado, ruas que não se podiam transitar, que até os moradores tinham que mostrar comprovante de residência, tudo para tentar isolar os manifestantes. A decisão do governo estava clara: isolar a manifestação, já que não conseguiriam impedi-la.
Exatamente como nas manifestações em Brasília-DF, em Buenos Aires ficamos em um espaço pensado e sem nenhum contato com a dinâmica da cidade. Não dialogamos com outros trabalhadores (somente alguns trabalhadores estatais e terceirizados que atuam na própria Esplanada e, justamente por isso, extremamente acostumados com manifestações diárias).
Outra vantagem do "protestódromo" para as classes dominantes é que nossas manifestações também estão isoladas da produção e circulação de mercadorias, ou seja, pode haver mil manifestações em Brasília-DF em um ano, não há nenhum prejuízo ou incomodo aos capitalistas que não estejam diretamente envolvidos com os trabalhadores que se manifestaram. Na verdade, a lógica de funcionamento da Esplanada é tão bem pensada que nem o trânsito da cidade sofre transtorno com as maiores marchas, tendo em vista que polícia reorganiza o tráfego pelos anexos.
Nem mesmo os políticos presentes na Esplanada parecem se incomodar com nossos atos. Recordo-me da famosa foto de 2016, que até fizemos um cartaz do SINASEFE: enquanto estávamos em um campo aberto de batalha, os parlamentares estavam confortavelmente tomando champanhe.
Talvez por viver em Brasília-DF e conhecer a dinâmica da cidade, me lembro de problemas em várias manifestações. Desde o ridículo de ter turistas pedindo para tirar fotos com um manifestante, até ver um panfleto de hotel dizendo que Brasília-DF "é palco de muitas manifestações, procure uma". O que me remete à crítica ao caráter performático de nossas manifestações, como apontou Amanda Gurgel.

Repensar os atos em Brasília-DF começa pela segurança
Mas o principal aspecto que a Argentina me levou a refletir sobre nossas manifestações é a questão da segurança. O megaoperativo montado nas ruas de Buenos Aires de mais de 20 mil policiais de todo tipo, as metralhadoras à mostra para a população, os grupos com cercas de ferro, além dos escudos, e os blindados parados nas principais vias, além das revistas constantes, davam o clima do controle militar.
Entretanto, o aspecto que quero ressaltar é outro. O governo tentar deixar Buenos Aires como Brasilia-DF significa dizer que quem está naquele lugar, naquela hora na rua, é por ser manifestante. Isso nos coloca como alvo fácil e isolado.
Significa que não contamos com a possibilidade de adesão e nem com o olhar direto de outros trabalhadores, portanto a manifestação não cresce no seu desenvolvimento. Em Buenos Aires não, quando a marcha cantava pessoas saíam de casa para se somar à ela, ou iam até as janelas para saudar. Vi isso por várias ruas residenciais que passamos.
Além disso, as várias ruas, o comércio que não fechou todo, dá possibilidade de saída, de corrida. Coisa que em Brasília-DF é impensável. Quando estamos na Esplanada, corremos pelo meio dela em seus longos quilômetros que parecem sem fim.
O projeto de Brasília-DF tem esse objetivo. Isolar os manifestantes, ter vias largas e imensas que sempre fazem nossas manifestações parecerem menores, ter pontos de controle e atiradores em locais chaves e ter pontos de chegadas de mais efetivos pelos anexos.
Nesse contexto que vamos viver, de mudança de conjuntura com o governo Bolsonaro, mudar o local das manifestações é uma necessidade e o debate de segurança tem que ser feito mais seriamente.
Não vai bastar comprar leite de magnésia, que aliás as farmácias estavam proibidas de vender no centro de Buenos Aires e os vendedores eram orientados a comunicar a polícia caso alguém quisesse comprar.
Se no governo Temer tivemos disparos com armas letais em manifestações, o que esperar de um louco que foi eleito dizendo que a polícia teria carta branca e que vai varrer os vermelhos?
Manifestações descentralizadas que se somam
Ao falar da manifestação contra o G20, não sei se é certo dizer que teve uma marcha ou o encontro de várias outras que desaguaram em uma só.
Ao observar que a marcha não parava de crescer (e eu não conseguia chegar nem ao começo e nem ao final dela) fui perguntar aos militantes do movimento piqueteiro com quem estava como era a dinâmica.
O que disseram é que os atos e grandes marchas em Buenos Aires costumam chegar juntos, ter um mesmo desfecho, mas não se iniciam da mesma maneira. São diferentes movimentos, sindicatos e partidos que costumam formar blocos para ir aos grandes atos, até aí não tem novidade.
A diferença é que eles fazem manifestaçoes em diferentes pontos da cidade, diferentes horários (inclusive porque tem gente que participa de mais de uma) e depois se encontram e encerram juntos.
Se por um lado grupos menores de manifestantes podem enfrentar repressão ainda em menor número, a vantagem observada por eles é que por todo o dia são diferentes ações espalhadas pela cidade e isso ganha um alcance maior. A própria repressão não consegue controlar e coibir todas. E a unidade e o volume das manifestações se mostra ao final, quando todas se encontram. Nesse caso, a marcha resultou desse somatório.
As ruas de Brasília-DF sao diferentes, não permitem essa dinâmica, mas observando o país, parece fazer mais sentido pensar em atos por regiões. Atos descentralizados que se somem no fato de serem em um único dia. Aliás, na Argentina muitos atos acontecem nas províncias e não vão para a capital.
Fato é que a conjuntura mudou e precisamos repensar nossa estratégia de grandes manifestações de rua. Vem aí uma Reforma da Previdência, ataques à Rede Federaç de Educação e nós seremos os primeiros a marchar.
Por isso, espero com esse relato trazer contribuições para que o SINASEFE não somente participe de atos internacionais, mas reflita sobre nossas lutas ao fazê-lo.

Mais fotos
Confira aqui o nosso álbum de fotos com 15 imagens dos atos contra o G20 em Buenos Aires.

Conteúdo relacionado
Última atualização em Seg, 03 dez. 2018 17:42