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“A bolsa ou a vida”: filme-manifesto estimula reflexão sobre a saída do pandemônio neoliberalista

No futuro pós pandemia do novo coronavírus, a centralidade será o cassino financeiro e acumulação de riqueza por uma elite ou uma vida de qualidade para todos, com menos desigualdade? O Estado mínimo se mostrou capaz de atender ao coletivo? Como garantir a vida sem direitos sociais e trabalhistas? Em qual modelo de sociedade queremos viver?

“A Bolsa ou a Vida” aborda o desmonte do conceito de bem-estar social e nos faz refletir sobre a incompatibilidade do neoliberalismo com um projeto humanista de sociedade.

Estamos na bifurcação. Em 2020, a pandemia da COVID-19 escancarou as mazelas de um modelo político-econômico que, desde a sua gênese, se anunciava incapaz de atender à coletividade. Afetadas por sucessivas crises financeiras globais e amparadas por poucos direitos sociais, milhões de pessoas em todo o planeta enfrentam o vírus em sistemas falidos que salvam bancos no lugar de garantir condições mínimas de bem-estar para a população.

“A Bolsa ou a Vida” é um filme-manifesto que incorpora diferentes olhares em um quebra-cabeças sobre o Estado, a financeirização, a desigualdade, a vida nas cidades, nas florestas e no campo e as portas de saída para o pandemônio em que vivemos.

Ancestralidade

Tendler inicia a produção com a voz de mulheres indígenas e negras, lutadoras da terra. “Junto com as caravelas chegou uma imposição de modos de ser e de viver que não são nossos, temos que ‘afundar’ essas caravelas ne?!”, destaca Márcia Mura, indígena do Coletivo Mura de Porto Velho. “A escravidão é, economicamente, um dos fenômenos que mais produziu riquezas para o capital” comenta Givânia Maria da SIlva Membra-Fundadora da Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas (Conaq).

Nada de Estado para os pobres

Ao abordar a situação econômica do país e dos trabalhadores brasileiros, o filme expõe o projeto de privatização de empresas estatais estratégicas e a situação de precarização extrema enfrentada pela classe trabalhadora. “A gente vive uma realidade que é a do Estado máximo pros ricos, inclusive nos momentos de crise. Quando os mais ricos vão pedir ajuda pro governo, nós dividimos os custos dos ‘prejuízos’ deles com ajudas trilionárias para bancos. E para os mais pobres? Estado mínimo. E agora defendem um Estado menor ainda, ou seja, o pobre tem que ter nada de Estado” denuncia Eduardo Moreira, economista do Instituto Conhecimento Liberta.

Não perder a ternura

Relembrando que a luta dos trabalhadores não deve ser sinônimo de endurecimento e de perda da sensibilidade, o filme-manifesto traz palavras como as de Padre Júlio Lancellotti: “Não podemos perder a ternura. A esquerda muitas vezes perdeu a ternura, a luta não pode nos endurecer, por isso até hoje eu me emociono, até hoje eu choro de ver a dor do povo”.

Direito à cidade

Abordando a questão da gentrificação e do direito à cidade no filme-manifesto, Eduarda Alberto, estudante de arquitetura e entregadora, mostra a situação de ocupações (e desocupações) no Rio de Janeiro-RJ.“Eles não podem conviver com a classe trabalhadora mais vulnerabilizada, essa classe fica somente nas favelas e não dividindo os espaços da cidade com eles [a elite]” denuncia. Ela conversa também com Lurdinha Lopes (integrante do Movimento Nacional de Luta pela Moradia) e mostra a ocupação Manoel Congo, que abriga 42 famílias ao lado da Câmara Municipal do Rio.

As portas de saída

O encerramento do filme-manifesto aponta o que seriam algumas portas de saída do pandemônio neoliberal: o socialismo, o bem-viver, a sabedoria do coração, a retomada do discurso da ciência (só que pautado nas relações políticas, éticas e socais), o imperativo da vida no lugar da economia, uma sociedade compartilhada, a priorização do bem comum, a tributação dos ricos, o reconhecimento real da pluralidade e da diversidade dos povos, a busca de esperançar ao invés de esperar, a inspiração em modos de ser dos povos originários (como por exemplo o Yve Marañe) e o uso da arte como ferramenta de luta.

Apoio

Compreendendo a importância da linguagem cinematográfica como forma de luta, o SINASEFE e outras e entidades combativas apoiaram financeiramente esta produção.

*Com informações da divulgação original do filme.

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