A saída de quem não entrou

Compartilhar

Durou pouco a experiência ministerial do empresário bolsonarista da área médica Nelson Teich: exatos 29 dias! Nesta sexta-feira (15/05), ele pediu demissão do cargo de ministro da Saúde, sem deixar respostas, projetos ou soluções à crise da COVID-19 no país e aumentando a tragédia do setor.

Neste momento, sexta-feira, dia 15 de maio, às 20 horas, são 14455 mortes e 212198 casos da COVID-19 no país. Os números aumentam a cada hora, mostrando que a curva de contágio no país está ascendente e que o momento impede medidas de relaxamento, embora o governo insista nelas.

Teich sai deixando no Ministério da Saúde um problema maior do que aquele que encontrou quando entrou. Mas a culpa do país estar mais vulnerável e crítico que antes é apenas dele?

Isso poderia ter sido respondido na coletiva que ele deu no meio da tarde de hoje (15/05), mas Teich – bolsonarista de carteirinha – decidiu não falar. Preferiu sair da forma como entrou: inepto.

O ex-ministro não demonstrou grandes divergências ou mudanças de rumo na condução do Ministério em relação ao seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta. Apenas no comportamento: enquanto Mandetta, mesmo discordando de Bolsonaro, decidiu forçar a demissão por, como médico, não admitir “abandonar o seu paciente”; Teich não fez esforço em permanecer ao primeiro sinal de “falta de pactuação” com o Presidente e saiu antes de completar um mês de gestão.

Médico de formação, Teich formulou estratégias que foram de encontro às de Bolsonaro sobre o uso da cloroquina, sobre as atividades essenciais e sobre a necessidade do distanciamento social. Teich não reinventou a roda: ele apenas seguiu o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda e copiou o que está sendo adotado pela maioria dos países do mundo no combate à pandemia – e inclusive já estava em funcionamento no Brasil antes dele tomar posse.

Em síntese: a situação piorou, mas Teich fez a coisa certa a se fazer. O problema é que o “chefe supremo” dele, Jair Bolsonaro, não quer ministros que façam a coisa certa: quer ministros que concordem com ele em fazer a coisa errada!

E agora, o que vem pela frente?

A aventura de Teich na saúde pública, área na qual ele nunca trabalhou, chegou ao fim da melhor forma para Bolsonaro – que não está nem aí para a saúde e a vida dos brasileiros.

Sem o desgaste de ter que demiti-lo e sem estar perdendo um ministro com popularidade em alta, o Ministério da Saúde, que no momento goza de amplo orçamento e atrai muitos olhares, fica à disposição do Presidente, que pode agraciar mais ainda sua base militar fazendo um novo milico de ministro ou que ainda pode leiloá-lo ao centrão, grupo que Bolsonaro sempre disse “combater” mas do qual se aproxima na tentativa de frear processos que possam levá-lo à perda do mandato.

Em meio à maior crise sanitária de nossa história, temos uma crise no Ministério da Saúde, que irá para o seu terceiro ministro em menos de um mês. Duas coisas são certas:

  1. a troca de ministro é inútil, o que precisa ser trocado é o Presidente;
  2. a COVID-19 é o segundo maior problema do Brasil no momento, o maior problema que temos é Bolsonaro.

Leia também

Conteúdo relacionado