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Professores têm rotina impactada com aulas virtuais

A madrugada é o horário em que o professor de história Thiago de Souza, de 35 anos, tem conseguido se concentrar para dar conta de boa parte da nova demanda de trabalho. Ele leciona a disciplina em quatro escolas da rede particular de ensino de Florianópolis-SC, mas não costumava dar aulas à noite. A nova realidade de trabalho em regime de home office tem obrigado Thiago a outros hábitos, como gravar videoaulas tarde da noite, horário de menos barulho na casa.

Com a suspensão das aulas pela pandemia da COVID-19, as atividades escolares remotas têm sido a solução encontrada por escolas particulares e, agora, também pelas das redes públicas estadual de Santa Catarina e municipal de Florianópolis-SC, impondo mudanças no cotidiano de professores, estudantes e familiares de ambos.

Thiago divide um apartamento com outra pessoa que também está em home office. Ele relata os problemas para conciliar a vida doméstica e as condições de trabalho que o ambiente permite. “A rotina mudou bastante, eu divido a casa com outra pessoa e, dependendo do que estamos fazendo, não dá pra gente trabalhar ao mesmo tempo”, conta.

A mudança provocada pelos novos regimes de trabalho também afetou a vida da professora de ensino básico da rede municipal de Florianópolis-SC, Márcia dos Santos, de 47 anos. Somam-se ao trabalho online as atividades domésticas e o suporte aos filhos que também estão estudando no sistema virtual de aulas.

O número de horas trabalhadas fica cada vez mais difícil de somar. Para Márcia, a dinâmica do trabalho agora não se restringe aos horários estipulados no regime presencial. “Ao contrário de quando você está na escola, você não estipula um tempo fixo para cumprir a jornada. De repente, não tem mais a hora fixa do trabalho. Você responde a mensagem no WhatsApp da escola, tem reuniões por videoconferência e, no final de semana, ainda trabalha para organizar as aulas que serão postadas e impressas”.

A mesma preocupação também é relatada pelo professor de física da rede estadual de Santa Catarina, Sandro Livramento, de 48 anos. “Hoje é muito fácil perder o controle das horas trabalhadas, ficar lendo e-mails e mensagens fora do ambiente de trabalho, isso pode levar a um esgotamento do professor, ansiedade e mais adoecimento”.

À medida que as escolas vão se adaptando à novidade, outras demandas surgem e precisam de tempo para serem assimiladas e executadas. A novidade obrigou Thiago a rearranjar os horários e melhorar seus equipamentos. Um problema que o professor de história acredita que as famílias também enfrentarão, como naquelas em que computadores são compartilhados.

“Às vezes, no horário da aula, os pais precisam trabalhar também em casa com o mesmo equipamento, por exemplo. A rotina de estudo da criança vai estar inserida numa rotina da casa, da família. O mesmo vale pra gente que é professor”, aponta.

Sandro também relata que precisou melhorar seus equipamentos pessoais e que tem dúvidas sobre a segurança dos professores quanto à privacidade na internet. Ele também se preocupa como o acesso às tecnologias pela comunidade escolar.

Segundo o professor de física, a implementação de ambientes virtuais de ensino na rede pública tem que considerar que as escolas não têm mais os laboratórios de informática. “Na rede pública estadual, a comunidade escolar não tem mais contato, há pelo menos três anos, com uma formação para lidar com essa linguagem tecnológica, salvo uma ou outra escola e professor que tenham a iniciativa individual”.

A situação é complexa e implica pensar nas condições de acesso à tecnologia, tanto para professores como para o estudante e sua família. Exige também refletir sobre a demanda de trabalho dos professores e a sua adaptação não somente no campo da metodologia de ensino e aprendizagem, mas pessoal e profissional.

A utilização de ferramentas virtuais nas escolas não é uma novidade e algumas experiências podem servir de exemplo para compreender possíveis consequências para os professores.

Sandro relembra que a chegada de outros mecanismos virtuais para controle de diário de classe, agenda e avaliação já são realidade. “Como agora, o sistema foi implantado sem testes, sem os professores saberem direito como operar, sem formação e capacitação com qualidade. Não havia computadores suficientes para todos os professores, nem rede de internet, o professor tinha que usar muitas vezes o seu pacote de dados”.

Dúvidas sobre benefícios das aulas remotas e ciclo letivo

As aulas virtuais também geram dúvidas em torno do benefício para os estudantes. Se a Educação não diz respeito apenas à explanação de conteúdo, mas também à formação social e cultural do estudante, é preciso discutir a equivalência das atividades virtuais para completar o ciclo letivo.

Thiago não acredita que o ensino virtual seja uma solução definitiva, mas uma forma de manter as crianças e adolescente em contato com a escola neste período de distanciamento social. “A escola não é só um espaço de aprendizado, ela também é um espaço de convívio para a construção da criança como um sujeito, que é uma questão importante na formação psicológica e intelectual de uma criança”, reforça.

A situação requer considerar a complexidade social, econômica e cultural, ou mesmo os diversos níveis escolares. Márcia, que leciona para uma turma de segundo ano do ensino básico, ainda não sabe dimensionar quantas crianças conseguirão acessar as atividades. “Por enquanto, das 49 crianças, oito acessaram as atividades que disponibilizamos. Temos esse controle porque alguns conteúdos são postados em formulários”. Para a professora, somente com o decorrer do processo é que será possível saber quantos estudantes terão condições de acessar as aulas.

Sandro acredita que implementar um sistema de ensino virtual, por mais que se fale em atividades remotas, é bem complexo. A experiência do professor diz que, enquanto adolescentes do ensino médio têm uma certa habilidade, as crianças usam os celulares e a internet para acessar joguinhos e brincadeiras. Para ambientes virtuais de estudo elas são mais lentas.

O professor ainda aponta todo o conjunto de questões pedagógicas envolvidas, como o pouco tempo e a qualidade da capacitação oferecidos. “Na rede estadual catarinense, o ambiente virtual não foi planejado para que os professores pudessem pensar suas relações pedagógicas nos seus níveis de ensino e adaptar suas aulas. Não houve nenhuma capacitação voltada às famílias e nem aos estudantes. As instruções ficaram ao encargo de cada escola”.

Márcia teme que a situação possa incentivar ideias sobre a supremacia da técnica sobre os princípios da Educação. “É um neotecnicismo, em que a tecnologia por si só parece tornar-se salvadora da Educação. O ano letivo não é mais importante que a aprendizagem”, argumenta.

As incertezas sobre o comportamento da pandemia ainda não permitem uma resposta definitiva para o problema. No entanto, o especialista em Educação e professor aposentado da Unicamp, Luiz Carlos de Freitas, sugere a junção entre os ciclos letivos de 2020 e 2021, levando em conta como cada cidade responde às ondas da pandemia e à retomada das aulas. Ele defende que os temas sejam retomados presencialmente. “É preciso entender o momento atual, não como um problema técnico. É um problema que envolve emoção, envolve afetividade. Se nós não fizermos isso, vamos prejudicar uma geração inteira”, afirma.

Outra saída pode ser a suspensão do calendário (medida defendida pelo SINASEFE), como já ocorreu em outras situações de catástrofes ambientais ou mesmo em greves. Sandro propõe que, mesmo com um sistema de atividades remotas, não se deve passar para um sistema de Educação a Distância (EaD). “As escolas têm autonomia de construir seus calendários de reposição com a comunidade, sem causar stress desnecessário às famílias. O mais grave em que estamos faltando é na proteção dos mais vulneráveis”, finaliza.

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*Matéria escrita com informações da Folha da Cidade